Xe Anama (Coração no Ritmo da Terra)

by Antropoceno

From the album: No ritmo da Terra

Duration: 11:15

No ritmo da Terra cover art

Lyrics for Xe Anama (Coração no Ritmo da Terra)

Meu pai era mineiro, né? Flávio Rodrigues Viana Meu pai nasceu em 1875 e faleceu em 1977 102 anos, morte natural, sem doença nenhuma Ele trabalhava na fazenda, plantando milho, arroz, feijão na roça Lavrador. Ele teve 14 filhos Criou todos os 14 ali, plantando na lavoura Pior que eu era feliz e não sabia, hoje eu tenho saudade Às vezes eu fico deitada pensando Meu Deus do céu, aquela época era muito bom! Ih, eu andava no meio do mato Lá naquela época a gente falava era cachoeira Nem falava rio, falava valão Aquela água gelada né? Tinha uma cachoeira lá em casa, parece que eu tô vendo Aí meus irmãos botava um cano de bambu, essas lata de goiabada Furava elas todinha e fazia um ralo Botava no cano e a água vinha da cachoeira no cano Caía ali no ralo, era aquele chuveiro, minha filha! É muito bom, foi muito bom! É menina, foi uma infância muito boa Juntava as amigas ali, passava a tarde toda conversando Depois cada uma ia pra sua casa dormir E depois 6 horas tava com a enxada nas costas pra ir pra roça capinar Quando eu voltei, achei tudo diferente Os valão, aqueles valão que tinha Você via peixe andando pra lá e pra cá Secou tudo. Lá na minha época tinha muito peixe Muito peixe, muita água Agora quando eu voltei lá Aqueles rio que tinha até aquelas ponte de madeira Aquilo ali, aqueles valão ali, hoje, secou Parece que os morro ficaram mais baixo, tendeu? Muitas casa que tinha lá de amigo e amiga morreram Outros mudaram, já tinha caído, não tinha mais aquelas casa Parece que tava um abandono Às vezes eu fico deitada lá E fica passando um filme na minha cabeça A vida que a gente levava Isso vem tudo na minha cabeça Fico pensando, meu Deus do céu, até que passei uma época boa Quer dizer que não posso reclamar da vida, né? Tô aqui, tenho meus filho maravilhoso, meus neto maravilhoso Vou chegar nos 100! Eu vou chegar! (...) A urbanização no Brasil é tardia Ainda nas décadas de 1960 e 1970 Havia campanhas para as pessoas saírem do campo E irem para os centros urbanos O que acarretou um grande êxodo rural Muita gente saiu da zona rural para liberar a área para o agronegócio E foi passar fome nas cidades O Brasil se especializou na produção de pobres Nossa tecnologia para produzir pobres é mais ou menos assim A gente pega quem pesca e colhe frutos nativos Tira do seu território e joga nas periferias da cidade Onde nunca mais vai poder pegar um peixe para comer Porque o rio que passa no bairro está podre (...) Não podemos nos render à narrativa de fim de mundo Que tem nos assombrado Porque ela serve para nos fazer desistir de nossos sonhos E dentro de nossos sonhos Estão as memórias da Terra e de nossos ancestrais Pra que a liberdade não seja só uma condição de aceitação do sujeito Mas uma experiência tão radical Que nos leve para além da ideia de finitude Essa configuração do corpo é apenas uma instituição pobre Fabricada por uma civilização sem imaginação Hey, xe anama Hey, xe anama Hey hey hey, xe anama Hey hey hey, xe anama Hey hey hey, xe anama Hey hey hey, xe anama Hey hey hey, xe anama Hey hey hey, xe anama Hey hey hey, xe anama, hey hey hey Hey hey hey, xe anama, hey hey hey Hey hey hey, xe anama, hey hey hey Hey hey hey, xe anama, hey hey hey O que as nossas crianças aprendem desde cedo É a colocar o coração no ritmo da Terra Hey, xe anama Hey, xe anama Hey, xe anama Hey, xe anama 102 anos de conexão com a terra, com esse solo Podem tentar te apagar, mas esse laço não vai se desatar Porque eu vou me lembrar, de ti recordar pra sempre Sua memória não vai se apagar, sua vida vai perdurar O rio pode até secar mas eu vou chorá-lo inteiro de volta O rio pode até secar mas eu vou chorá-lo inteiro de volta O rio pode até secar mas eu vou chorá-lo inteiro de volta O rio pode até secar mas eu vou chorá-lo inteiro de volta

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